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sexta-feira, 28 de abril de 2017

Descoberta arqueológica dispara controvérsia sobre chegada do homem à América

Quem foram os primeiros americanos e quando e como eles chegaram aqui? Por décadas, arqueólogos acreditaram saber as respostas a essas perguntas. Baseando-se nas evidências disponíveis, parecia que um grupo de grandes caçadores da Ásia, conhecido como cultura Clóvis, havia sido o primeiro a abrir essa trilha, caminhando pela hoje submersa massa de terra da Beríngia para entrar no Novo Mundo há cerca de 13 mil anos.

Porém, no começo dos anos 2000, sinais de uma presença humana anterior nas Américas começaram a surgir, erodindo o apoio ao chamado primeiro modelo de Clóvis. Um novo entendimento sobre como as pessoas finalmente conquistaram o Novo Mundo começou a tomar forma: o Homo sapiens chegou de barco há pelo menos 15 mil anos, seguindo a costa ocidental das Américas.


Agora, os cientistas por trás da nova descoberta estão tentando reescrever a história da colonização humana das Américas mais uma vez - e de uma forma muito mais radical. Em um artigo publicado ontem, dia 26 de abril, na Nature, os pesquisadores descrevem os ossos quebrados de um mastodonte (um parente extinto do elefante) e pedra gastas encontradas no sul da Califórnia. A equipe argumenta que os restos demonstram que os humanos já estavam nas Américas há 130 mil, no início do final do Pleistoceno. Se eles estiverem certos, a descoberta poderia pôr em cheque a suposição de que o H. sapiens foi o primeiro e único membro da família humana a alcançar o Novo Mundo, pois naquela época várias espécies de hominíneos, incluindo os Neandertais, vagavam pelo planeta. Isso também pode sugerir que arqueólogos tenham perdido registros de mais de 100 mil anos de seres humanos nesta parte do mundo. Contudo, o anúncio sofreu duras críticas de outros cientistas, que argumentam, de diversas formas, que esses restos não necessariamente refletem a atividade humana, e que sua idade é incerta.

Paleontólogos escavaram os restos no início dos anos 1990 em um sítio arqueológico no condado de San Diego, descoberto durante obras de melhorias de estrada na rota 54 do estado. Os pesquisadores recuperaram ossos de diversas espécies de idade de gelo de diferentes níveis estratigráficos no local. Para o novo estudo, Steven Holen do Museu de História Natural de San Diego e seus colegas focaram no esqueleto parcial de um mastodonte macho encontrado neste local, apelidado de Mastodonte Cerutti pelo seu descobridor, o co-autor Richard Cerutti, também do museu. Os ossos dos membros do mastodonte apresentam evidências de rupturas chamadas fraturas espirais, que serpenteiam em torno do longo eixo do osso. Tais fraturas ocorrem, tipicamente, quando a força é aplicada ao osso fresco. As extremidades de alguns dos ossos também foram quebradas, e vários pedaços grandes de pedras gastas se encontravam nas proximidades. Quando a equipe experimentalmente quebrou ossos de carcaças de grandes mamíferos modernos usando martelos e bigornas, o dano resultante se assemelhava ao visto nos ossos e pedras do local. Juntos, o padrão de danos visível nos ossos e pedras e a proximidade das rochas aos ossos sugerem que os humanos estavam batendo com as pedras nos ossos para chegar à parte nutritiva do animal, ou para fazer ferramentas de osso.

Nada disso seria notável por si só. Tais comportamentos têm sido bem documentados em sítios arqueológicos ao redor do mundo. O que torna a descoberta importante é a suposta idade dos restos mortais. A equipe determinou a idade dos ossos de mastodonte aplicando uma técnica chamada datação por urânio, a qual utiliza a decomposição radioativa do urânio para medir a passagem do tempo. Os resultados indicaram que os ossos têm 130 mil anos, com uma margem de erro de 9 mil anos - mais de 100 mil anos mais velhos do que os sítios arqueológicos comumente aceitos como os mais antigos nas Américas.

Hoje, o sítio do Mastodonte Cerutti fica no meio de um cenário urbano. Porém, há 130 mil anos, durante o último período interglacial, havia um rio sinuoso em uma planície de inundação perto da costa. Camelos, lobos e capivaras perambulavam por lá. "Foi um lugar muito agradável para se viver", disse Holen em uma teleconferência com a imprensa no dia 25 de abril.

Se Holen e seus colegas estiverem corretos sobre a idade e a natureza das descobertas, os pesquisadores precisarão repensar tudo o que pensavam saber sobre o povoamento do Novo Mundo, incluindo qual espécie humana foi a primeira a colonizá-lo. A maioria dos pesquisadores concorda que os seres humanos vieram para as Américas pelo nordeste da Ásia. Há 130 mil anos, os autores argumentam, o Homo sapiens, o Homo erectus, os Neandertais e os Denisovanos (um grupo conhecido apenas através DNA antigo recuperado da caverna de Denisova, na Sibéria) já poderiam estar presentes nessa parte do mundo. Eles poderiam ter atravessado Beringia a pé há mais de 135 mil anos, quando o nível do mar era suficientemente baixo. Caso contrário, poderiam ter viajado de barco, seguindo as costas da Ásia, Beríngia e América do Norte para chegar à latitude do sítio do Mastodonte Cerutti.

Durante a teleconferência com a imprensa, Holen disse que a nova descoberta deveria encorajar outros arqueólogos a procurarem mais sítios com essa idade - algo que ele diz que não foi feito antes porque ninguém esperava que os humanos já estivessem nas Américas tão cedo.

Especialistas não envolvidos no novo estudo expressaram profundo ceticismo sobre a avaliação da equipe, particularmente a alegação de que os ossos quebrados e pedras gastas refletem a atividade humana. "Você não pode empurrar a antiguidade humana no Novo Mundo 100 mil anos com base em evidências inerentemente ambíguas como ossos quebrados e pedras inclassificáveis - não quando estão vindo de uma escavação de rodovia feita há 25 anos e você não tem nenhuma das informações tafonômicas detalhadas que são exigidas para uma afirmação tão grandiosa", diz David Meltzer da Universidade Metodista do Sul, autoridade sobre o povoamento das Américas.

Essa falta de evidência tafonômica - informações sobre o que aconteceu com os restos entre o momento em que foram depositados e quando foram descobertos - resume-se à "diferença entre a escavação paleontológica e a arqueológica", diz o arqueólogo Andy Hemmings, da Universidade Atlântica da Flórida, referindo-se às diferentes abordagens que os cientistas possuem para desenterrar fósseis em oposição a vestígios de cultura material, que requerem uma proveniência mais detalhada. "Eles não mapearam cada objeto e prestaram atenção às relações entre os itens. As peças foram encontradas a 15 pés ou 15 centímetros de distância uma da outra?", ele diz. Essas informações são importantes para reconstruir a forma como os ossos quebraram e qual relação existia entre os ossos e as rochas, se é que há alguma.

Embora os pesquisadores pudessem reproduzir experimentalmente os danos nos restos processando o osso fresco com ferramentas de pedra, observam os críticos, a equipe não descartou causas alternativas. "Uma coisa é mostrar que ossos quebrados e rochas modificadas poderiam ter sido produzidos por pessoas, o que Holen e seus colegas fizeram. É bem diferente mostrar que apenas pessoas poderiam ter produzido essas modificações. Holen [e seus colegas] certamente não fizeram isso, tornando esta uma reivindicação muito fácil de recusar", diz o arqueólogo Donald Grayson da Universidade de Washington. Outros comentaristas explicaram que a equipe precisaria olhar para muitas outras coleções de fósseis de grandes ossos de mamíferos, para ver se causas naturais poderiam explicar os padrões de ruptura evidenciados no sítio do Mastodonte Cerutti.

E também não é apenas os restos de uma tecnologia de tipo martelo de pedra/bigorna o que muitos especialistas esperariam ver em um sítio de 130 mil anos de idade. James Adovasio, da Universidade Atlântica da Flórida, diz que os locais de matadouro de idade comparável de outras partes do mundo tendem a conter ferramentas de pedra incontestáveis. Ele observa que, nessa época, os humanos eram mestres em moldar pedra, capazes de criar uma variedade de ferramentas sofisticadas e afiadas para cortar e fatiar. "A total ausência dessas coisas aqui é, digamos, intrigante", comenta. Adovasio liderou as escavações no controverso sítio de Meadowcroft, na Pensilvânia, que data de, talvez, 16 mil anos atrás.

A possibilidade de os humanos arcaicos terem chegado ao Novo Mundo é outro ponto de tropeço para alguns críticos. O estreito de Bering foi inundado há 130 mil anos, observa Jon Erlandson, da Universidade de Oregon, um dos principais proponentes do modelo de rota costeira. "Há algumas evidências de que o Homo erectus conseguiu atravessar algumas pequenas porções de água, mas nenhuma evidência de que o erectus, ou os Neandertais, pudessem fazer viagens de longas distâncias ou de que possuíssem barcos sofisticados como os humanos modernos que colonizaram a Austrália”.

Não obstante a questão das espécies, se os seres humanos entrassem no Novo Mundo tão cedo quanto Holen e seus colaboradores sugeriram, por que existe uma lacuna tão grande no registro arqueológico entre os restos do Mastodonte Cerutti e os outros sítios mais antigos das Américas? "Se haviam pessoas em San Diego 130 mil anos atrás, você tem que explicar por que não havia mais nenhum deles lá até 115 mil anos depois disso", Erlandson afirma. Ele se opõe à sugestão dos autores de que pesquisadores simplesmente não têm procurado restos dessa idade, observando que ele e outros arqueólogos têm feito exatamente isso há algum tempo, muitas vezes através dos mesmos tipos de esforço de construção-monitoramento os quais levaram à descoberta do Mastodonte Cerutt. "Eu fiz bastante monitoramento de construção na área de Santa Bárbara e temos escavações cuidadosamente monitoradas de sedimentos da mesma idade. Estávamos procurando por artefatos e não os encontramos", ele explica. Erlandson acrescenta que há uma longa história de pessoas reivindicando sites extraordinariamente velhos nas Américas, incluindo o local de Calico Hills, na Califórnia, que o famoso paleoantropólogo Louis Leakey disse ter, talvez, 200 mil anos. Mas essas reivindicações foram todas desacreditadas.

Não apenas não existem outros vestígios de seres humanos nas Américas em qualquer lugar perto de 130 mil anos de idade, como também não há quaisquer sinais de atividade humana na região pela qual acredita-se que os humanos tenham entrado no Novo Mundo. "Não há sequer um sussurro de qualquer coisa dessa época no nordeste da Ásia", observa o arqueólogo Robin Dennell da Universidade de Exeter, na Inglaterra, que estuda a dispersão de ancestrais humanos na Ásia, na Austrália e nas Américas. No que lhe diz respeito, Dennell não se incomodou com a interpretação, feita pela equipe, dos ossos e das pedras como sinais de atividade humana. Mas ele está preocupado com a datação. "O argumento para o sítio ter 130 mil anos parece se apoiar em apenas três datações feitas com urânio," ele observa. "Eu gostaria de ver o Mastodonte Cerutti passando por mais datações antes de afirmar que ele foi da última época interglacial."

Peritos de datação arqueológica não envolvidos na pesquisa tiveram reações mistas em relação ao estudo. "Acho que a datação é boa", diz o geocronologista Rainer Grün da Universidade Griffith, na Austrália. Mas a geoquímica Bonnie Blackwell, da Williams College, acredita que a equipe poderia fazer mais para reforçar sua tese. Ossos são esponjosos e o urânio pode ser absorvido por ele ou lixiviado para fora, de maneira que pode afetar a exatidão dos resultados. Ela gostaria de ver os dentes do mastodonte sendo datados utilizando uma técnica chamada ressonância de spin eletrônico (ESR, na sigla em inglês), a qual observa os elétrons no esmalte do dente para estimar a idade. Blackwell usou uma combinação de séries de urânio e ESR para datar com sucesso restos de mastodonte do sítio de Hopwood Farm, em Illinois.

"Precisamos deixar nossas mentes abertas. Admiro esses colegas por buscarem. Eles devem ser elogiados por fazer isso", diz o arqueólogo Tom Dillehay da Universidade Vanderbilt, que lutou durante anos para convencer a comunidade arqueológica que restos do controverso local de Monte Verde, no Chile, antecedem a cultura Clóvis. Hoje, a maioria dos estudiosos aceita que Monte Verde remonta há cerca de 15 mil anos, talvez até entre 18 mil a 20 mil anos, como Dillehay sugeriu. “Contudo, mais evidências serão necessárias" para uma data tão precoce, ele comenta sobre as reivindicações de atividade humana no sítio do Mastodonte Cerutti.

Hemmings concorda. "Eu realmente quero acreditar em hominíneos nas Américas há 130 mil anos, mas não com essa evidência. Não há o suficiente para comemorar e abrir o champanhe”.

Kate Wong

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